11 outubro 2007

ModaLisboa - Move 2007


Moda Lisboa: O lugar mudou, falta mudar o resto
11.10.2007 - 09h55 , Maria Antónia Ascenção

A ModaLisboa mudou de local e ganhou um cognome. Chama-se agora ModaLisboa/Estoril, e decorre entre hoje e domingo na Cidadela de Cascais. Pela 29ª vez, a Associação ModaLisboa promove a mostra de colecções de criadores portugueses. Mas quem acompanha os desfiles há anos sugere que a mudança geográfica deveria ser acompanhada por um repensar da estratégia global do evento.

A mudança de local deveu-se à ruptura entre a Associação ModaLisboa e a Câmara de Lisboa (ver entrevista). Foram encontrados novos parceiros, entre os quais a Junta de Turismo do Estoril, que contribui com 300 mil euros (provenientes das receitas de jogo) dos 850 mil que a organização prevê gastar com o evento. Os custos restantes são assegurados pelos patrocínios.

Num momento em que mais de 20 criadores se preparam para apresentar as suas propostas para a próxima Primavera/Verão numa nova cidade, a jornalista de moda Anabela Becho confessa que gostaria que esta mudança não fosse só de espaço. A organização deveria "tornar o evento mais profissional" e nos criadores "gostaria de ver mais sentido crítico para poderem evoluir". "Não basta acompanharem as tendências, têm que fazer um trabalho de fundo e de pesquisa individual. Há pouca gente a fazer um trabalho marcante que não esteja já visto em todo o lado", diz a jornalista, que, pela primeira vez, assinou numa revista especializada - a edição portuguesa da Vogue - um texto crítico à ModaLisboa. "Crítica construtiva", sublinha, "para pôr as pessoas a pensar de forma a evoluírem".

A dupla de criadores Manuel Alves e José Manuel Gonçalves, que marcava presença desde a primeira edição da ModaLisboa e desta vez estará ausente por questões logísticas e obras no seu atelier, diz que é igualmente necessário um "maior rigor" na escolha dos designers. "Lá fora os criadores pagam os seus desfiles. Por cá, habituaram-se a ter tudo pago. É preciso responsabilizar as pessoas: quem quer fazer um desfile tem que ter capacidade para isso, senão nunca terá a noção de como é difícil".

O acesso aos desfiles faz-se por convites, distribuídos por criadores, organização e patrocinadores, o que pode resultar numa selecção prejudicial à vertente comercial do evento, um dos motivos que pode explicar que haja poucas etiquetas de criadores portugueses nas lojas multimarcas. O show-room da ModaLisboa representa um esforço de captação de compradores, ainda com resultados irregulares. "Quando se está dependente de patrocínios", diz Manuel Alves, "acaba por ter que se abrir os desfiles a um leque de pessoas que os massificam", ao contrário do que acontece nas semanas de moda mais conhecidas. "Era preciso haver maior rigor nos convites para acabar com este lado burlesco de quem vai ver moda como se fosse ao circo".

A ModaLisboa existe há 16 anos e "as primeiras edições eram um verdadeiro acontecimento. As pessoas faziam tudo para conseguir um convite", recorda Anabela Becho, que ressalva, juntamente com a dupla Alves/Gonçalves o excelente trabalho que a Associação ModaLisboa tem feito na divulgação da moda portuguesa. "Sabem pôr de pé um evento de moda. É muito bem feito", diz Manuel Alves. "Mas há que repensar o resto".

Sem comentários: